COLUNA CHICOLELIS: O ônibus e eu

A ideia desta coluna desta semana começou quando entrei na Lat.Bus – Feira Latino Americana de Transportes e me deparei com um modelo da Marcopolo à minha frente. Logo veio à minha lembrança as viagens de ônibus, desde os tempos do Expresso Brasileiro, que percorria, quase se arrastando, a serra do Mar, vencendo os quase 20 quilômetros da Via Anchieta na subida para São Paulo, partindo de Santos; até os dias atuais, dentro de São Paulo, pelos esburacados corredores de ônibus da Capital.

Também lembrei das minhas idas e vindas, entre São Paulo e Rio de Janeiro pela​, ainda pista simples, V​ia Dutra, a bordo do famoso Morubixaba (modelos Coaches) , importado dos EUA, com o não menos famoso motor GM Marítimo, que emitia um ronco de fazer inveja aos modelos esportivos da atualidade. Muitos o comparavam a uma música. E era delicioso de ouvir mesmo.

No ônibus subindo de Santos para São Paulo, pela Anchieta, inaugurada em 1947, a carroceria do Expresso Brasileiro era da Ciferal. Os bancos não tinham lá muito conforto, nem mesmo a inclinação oferecida nos modelos intermunicipais dos dias de hoje. E o que mais me vem à memória era sua chegada à São Paulo.

Poucos metros antes de chegar ao ponto de desembarque, na Praça Clóvis Beviláqua (Jurista Brasileiro – 1859/1944), havia a subida da Rua Tabatinguera, com uma inclinação muito grande. Tão forte que tinha a sensação que nos seus poucos metros tomavam mais tempo para subir que os quase 20 quilômetros da serra da Anchieta.

Nos ônibus da Cometa, viajava entre Taubaté e Rio de Janeiro. Os Morubixabas eram mais confortáveis que os usados entre Santos e São Paulo. Mas havia um inconveniente: para viajar, tínhamos que ir até a beira da Via Dutra, onde o ônibus parava. Não havia um ponto dentro da cidade, como em Santos e São Paulo.

Já para ir de Taubaté à São Paulo, a viagem era pela Pássaro Marrom, cujos ônibus eram reconhecidos exatamente pela cor do seu nome. Hoje a cor foi abolida (e quase irreconhecível), apesar do nome ter sido mantido.

Sobre a viagem ao Rio, pela Cometa. Morando no Grajaú, tínhamos a facilidade de embarcar na garagem/oficina da empresa, que ficava ali perto, na Rua Maxwell (homenagem ao Barão Maxwell). (Hoje o lugar foi demolido e no seu lugar há um supermercado). Lá os motoristas tinham que se apresentar algumas horas antes da sua viagem intermunicipal (SP/Rio), como garantia de que estariam em boas condições físicas para sua empreitada de 430 quilômetros, que durava entre oito e nove horas. Havia uma parada para “esticar as pernas” no Restaurante Tamborindeguy (nome que, com meus sete ou oito anos, nunca conseguia pronunciar), em Roseira, no Vale do Paraíba.

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Passados alguns anos, a viagem que mais me marcou foi aquela em que, quando repórter de O Globo (Sucursal São Paulo) viajei até Iguatu, no Sertão do Ceará, ao (lado de Orós, que já foi o maior açude do País) a bordo de um Mercedes-Benz monobloco O-355/0-364. Fui acompanhando uma família que voltava para sua terra, após milhares de demissões em massa que aconteceram em agosto/setembro de 19872 na indústria do ABC (região metropolitana de São Paulo). 

Foram mais de 70 horas de viagem e o máximo conforto era uma leve inclinação do encosto do banco. Foi ali que descobri o significado do termo “cozinha” usada em um ônibus. Ao anoitecer, as pessoas pegavam suas marmitas e deixavam sobre o motor que ficava no fundo carro, emitindo calor suficiente para tornar “morna” a sua comida.

Nos últimos tempos tenho andado de ônibus (gratuitamente), em São Paulo, que percorrem os corredores exclusivos que existem por toda a Capital do paulista.​ Os ônibus são confortáveis, especialmente os elétricos, mas suas suspensões precisam ser reforçadas para enfrentar os buracos que existem por todos os seus percursos. E com eles, sofrem os passageiros e, principalmente os motoristas e cobradores, que cumprem jornadas de oitos horas ou mais, que vivem com problemas em suas colunas.

Eu até já convidei o prefeito da cidade (Ricardo Nunes) para uma viagem de ônibus pelos corredores, mas ele não respondeu ao meu convite. Acho que ele não quer sair da viagem com dor na coluna.

 

 

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