COLUNA CHICOLELIS: O motor do lado direito vai explodir

Nos meus dias de repórter de O Globo (Sucursal São Paulo) convivi com pessoas muito especiais, entre elas, João Augusto Conrado do Amaral Gurgel, um gênio que produziu o Itaipu o primeiro carro elétrico da América Latina em 1975. Neste ano Gurgel estaria completando 100 anos.

Sua marca, GURGEL, apareceu no Buggy Ipanema, seguido do Xavante XT, que teve várias versões. Foram cerca de 30 modelos, prioritariamente utilitários, com apenas o modelo XEF, pequeno carro urbano, com motor VW 1.600, produzido entre 1983 e 1986. Seu preço, muito alto,  fez com suas vendas se restringe a menos de 150 unidades.

Mas a história de Gurgel é muito conhecida e, por isso, quero aqui falar de algumas cenas que vivi com ele e, posteriormente, após sua morte, com sua filha Maria Cristina.

Estive algumas vezes em sua casa, ao lado da fábrica, em São Carlos, SP, para entrevistas e aprender a admirar o gênio Gurgel. Certa vez, durante o almoço, ele se insurgiu contra o Proálcool, argumentando que ele iria acabar com os pequenos produtores de alimentos, como o seu vizinho, um pequeno agricultor japonês, que fornecia verduras, legumes e frutas para sua casa e que agora produzia cana de açúcar.​ “E agora nosso alimento vem do CEASA (antigo nome do CEAGESP)”, lamentou.

Sua esposa, Carolina , que lhe dera três filhos,  contou que “o João era incrível, que nunca parava de fazer cálculos. Nem mesmo quando dormindo. Era muito comum ouvi-lo calculando enquanto dormia”.

A visita à fábrica sempre incluía uma “aventura” no terreno da mesma, com uma grande inclinação que terminava na linha férrea. Ele sempre dirigia agressivamente, subindo na maior velocidade possível. Lá no alto, poucos metros antes da linha do trem, ele dava um “cavalo de pau” e descíamos no Gurgel Tocantins, a toda velocidade. Ele ria, percebendo o desconforto do passageiro.

Apoio do Imprensa de Economia

Não lembro exatamente quando, ele resolveu abrir o capital da empresa, colocando ações no mercado. Lembro bem que vários jornalistas do setor, como eu, o Nereu Leme, então na Folha de S. Paulo; S. Stefani, uma das maiores memórias da Imprensa (ele não anotava uma única linha nas entrevistas), da extinta Gazeta Mercantil; Alzira Rodrigues, à época no Estadão; Milton da Rocha Filho (do extinto Jornal do Brasil) adquirimos ações da Gurgel Veículos, como forma de prestigiar o empresário que todos admiravam.

Agora, a explosão!

Além da data referente ao 100º aniversário de João Augusto Conrado do Amaral Gurgel (que nos deixou em 30 de janeiro de 2009), o que me fez voltar a falar dele foi o acontecimento em Cumbica (aeroporto de São Paulo), quando o motor de um avião explodiu tão logo levantou voo em direção aos EUA.

Em uma viagem com sua filha ao lado, Gurgel olhou para a direita da aeronave, que taxiava, e disse à​Maria Cristina, em voz baixa: aquele motor vai explodir. Vou chamar a comissária. Ela ainda tentou demove-lo da​quela ideia, mas não conseguiu.

Gurgel apertou o botão de chamada, a moça veio e ele, com toda a discrição possível, falou da sua preocupação, com o barulho do motor apontado.

Ela foi até a cabine e voltou de lá com um sorriso informando que o comandante afirmara que nada havia de errado com o motor mencionado.

Ainda em terra​, felizmente, taxiando, o motor explodiu!”

Esse era o gênio João Augusto Conrado do Amaral Gurgel, que um dia sonhou e conseguiu produzir um carro totalmente brasileiro.  Pena que durou pouco.

 

 

Related posts