Vale a pena escolher um caminho, enfrentar terra, amassar barro e ver o Brasil da janela de seu carro.
Vale tanto a pena que vale até viajar na memória e recordar momentos especiais e felizes como a expedição Flexpedition que fizemos, eu e um grupo de jornalistas. Vale a pena esquecer um pouco os momentos difíceis que o mundo atravessa para recordar. E como dizem os poetas, recordar é viver!
Vale a pena cruzar o País de Norte a Sul, de Leste a Oeste, rodar por todo nosso litoral, desde o Oiapoque até o Chuí; desenhar uma cruz de Leste a Oeste, desde a praia de Cabo Branco em João Pessoa (PB) até a pequena cidade de Mâncio Lima (AC), nas nascentes do rio Moa, em plena floresta Amazônica e, depois, visitar o Caminho do Ouro (ou Estrada Real), de Diamantina, MG, até Paraty, RJ, por onde seguia o ouro brasileiro que era lavado para Portugal.
É possível ver e amar o Brasil da janela de um carro, conhecendo todas as nossas praias, passando pelas cidades mineiras que ainda guardam sinais da colonização, cruzar o sertão nordestino, o cerrado do Brasil Central e por fim, a floresta Amazônica, num total de 22 mil quilômetros, ou meia volta em torno da terra, com seus 40 mil quilômetros de circunferência.
Parece um desafio. Mas, foi o que fizemos com cerca de 100 jornalistas brasileiros, de jornais, rádio, tv, revistas, blogs e sites em três expedições, chamadas de Flexpedition, em sete carros Chevrolet, entre agosto de 2006 e setembro de 2007: do Chuí ao Oiapoque, 45 dias; Caminho do Ouro, 10 dias; e, Leste-Oeste, 35 dias.
O objetivo, comprovar a versatilidade dos carros Flex, movidos a gasolina e/ou etanol, mas, principalmente, para mostrar aos jornalistas convidados o Brasil real, com praias paradisíacas, estradas boas, caminhos difíceis, desenvolvimento, lugares esquecidos, perdidos, quase no fim do mundo.
Esses jornalistas visitaram lugares aonde nunca haviam ido antes, viram populações que talvez pensassem que não existiam e, acima de tudo, realizaram o sonho de conhecer melhor seu próprio País.

De ponta-cabeça
A aventura começou de ponta-cabeça ou de trás para a frente, até porque Chuí, no Sul do Brasil fica mais perto de São Paulo, de onde partiram os carros, do que o Oiapoque, lá no Norte brasileiro.
Essa primeira expedição fez, então, o caminho ao contrário, do Chuí até o Oiapoque que, na época não tinha energia elétrica e o esgoto era a céu aberto. Como continua até hoje.
Desde o Chuí, até São Paulo, foram visitadas as cidades e lugares de Porto Alegre, Chuí, Praia do Cassino (a maior praia do mundo em extensão, com cerca de 250 quilômetros), em Santa Catarina, a Serra do Rio do Rastro, uma descida de 1.460 metros, no Paraná (Caverna do Diabo) e também de São Paulo.
Os jornalistas foram se revezando por etapa. Do Chuí até São Paulo um grupo, de São Paulo até a Bahia outro grupo e assim por diante até chegar ao Oiapoque, o ponto mais setentrional (ao norte) do Brasil.
Do começo ao fim, a equipe da expedição do Chuí ao Oiapoque percorreu os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, Maranhão, Pará e Amapá, nas cinco etapas dessa primeira expedição Flexpedition.
Foram 45 dias de estradas, nas mais imprevisíveis condições de conservação, e mais de 10 mil quilômetros, divididos em cinco etapas.
Dificuldades, estradas perigosas, calor equatorial insuportável, maratonas de até 13 horas rodando num único dia para cumprir os objetivos traçados, mas, também, belas paisagens brasileiras, agradáveis descobertas e a doce sensação de missão cumprida.

Uma saborosa viagem fluvial
Em Belém, capital do Pará, começou a quinta e última etapa da expedição, com uma saborosa aventura de travessia da Baía de Marajó, começando pelo rio Pará, circundando a ilha de Marajó, até sair no rio Amazonas, no porto de Santana, ao lado da cidade de Macapá. Foram cinco dias e cinco noites a bordo do navio São Francisco de Paula, subindo o rio Amazonas contra a maré até Manaus.
A ilha de Marajó é uma ilha pertencente ao Estado do Pará, localizada na foz do rio Amazonas. Com uma área de aproximadamente 40.100 km², é a maior ilha fluviomarinha do mundo. A maior ilha fluvial é a ilha do Bananal. A cidade de Belém situa-se a sudeste do canal que separa a ilha do continente.
A ilha se destaca como o lugar de maior rebanho de búfalos do Brasil, por ter uma população ribeirinha bem pobre e uma quantidade infinita de serrarias, legais ou ilegais.
A expedição contornou toda a ilha de Marajó, desde a Baía de Marajó, saindo de Belém, até o Porto de Santana, próximo à cidade de Macapá, no Amapá.
O barco, ou melhor navio, usado pelos expedicionários foi o São Francisco de Paula, pilotado pelo comandante José da Silva Brito, de 44 anos. A diferença entre barco e navio é que barco é feito de madeira e navio de ferro. Mas, não era um navio grande. Em seu convés couberam apertados três carros da expedição. Outros quatro carros já haviam sido enviados a Macapá em outro navio.
As primeiras informações que tínhamos sobre o navio não eram muito auspiciosas. Seriam cinco dias de navegação e alguns expedicionários teriam que dormir em redes, pois o navio tinha poucas cabines.
Aliás, o pessoal que viaja nesses navios paga por uma cabine, com um beliche para duas pessoas ou para dormir na rede. Cada um deve levar sua própria rede e uma cordinha para amarrá-la nos ganchos do convés, que fica parecendo um varal de roupas coloridas estendidas para secar. Tem gente, como o sr. José Augusto que, por falta de dinheiro, conseguiu um pequeno desconto para dormir no chão (sem colchão) com a mulher e uma filha. Outros dois filhos dividiram a única rede da família.
Os navios entre Belém e Macapá têm, no entanto, a concorrência das companhias aéreas. Quem tem muita bagagem, porém, prefere o navio em função do preço, como o mascate Erivan Machado Miranda, de 23 anos e sua mãe Marisete. Eles compram roupas em Belém e Fortaleza, para revender em Macapá: “É a primeira vez que faço essa viagem de navio. Levar todas essas trouxas de roupas no avião fica mais caro”, disse.
Viajar de navio pelos rios Pará e depois Amazonas, contornando a ilha de Marajó, além do tempo de viagem e do desconforto, tem lá seus perigos que os tripulantes não admitem. O navio São Francisco de Paula, por exemplo, tem seguranças que ficam acordados a noite toda, enquanto os passageiros se enroscam nas redes, para evitar o ataque de piratas que se escondem nas muitas ilhas fluviais e mesmo na ilha de Marajó.

Além dos piratas, a região abriga muitas serrarias e, segundo os habitantes, de Belém e Macapá, a maioria ilegal.
Outro perigo no caminho do navio são os ribeirinhos que seguem o navio em busca de comida ou presentes que os tripulantes e passageiros jogam na água, dentro de sacos plásticos. O comandante José da Silva Brito disse que às vezes ocorrem afogamentos e atropelamentos quando os pequenos barcos entram na frente do navio. Esses barcos, geralmente, são tripulados por crianças pequenas de cinco a seis anos, que desaparecem nas ondas provocadas pela passagem do navio.
Na parada em Parintins (lembram da festa, em junho, do Garantido e Caprichoso?) um fato curioso. Querendo saber de algum lugar onde pudesse comprar artesanato, me indicaram uma loja “logo ali”. E lá fui, era logo ali mesmo, em busca de um chapéu de palha para proteger a cabeça que fervia sob o sol.
Encontrei um muito bonito, bem-acabado, elegante, e perguntei ao balconista de que tribo o havia produzido. Não lembro o nome fornecido, mas ele garantiu que era obra de nossos índios. Chegando ao barco, onde estávamos hospedados, ao levantar a aba interna, vi e inscrição Made in China (talvez, procedente de alguma tribo no interior do País asiático que, à época, ainda não era a potência mundial de hoje).
O rio Amazonas nasce na Cordilheira dos Andes, no lago Lauri ou Lauricocha, no Peru e deságua no Oceano Atlântico, junto à Ilha do Marajó. Ao longo de seu percurso, o Amazonas recebe os nomes de Tunguragua, Marañón, Ucayali, Solimões e finalmente Amazonas.
Uma pesquisa recente revelou que o Amazonas tem de 6.868 quilômetros de comprimento e mais de mil afluentes, portanto maior que o Nilo com seus 6.695 quilômetros de extensão, é, assim, o mais longo rio do mundo. Sua bacia hidrográfica é a maior do mundo, com uma superfície de aproximadamente sete milhões de quilômetros quadrados. O Amazonas, como todos sabem, é de longe o rio mais caudaloso do mundo, com um volume de água cerca de 56 vezes o do rio Nilo.
Em Macapá, o Amazonas forma uma praia fluvial durante a vazão, ou maré baixa, onde os habitantes jogam futebol. À noite, com a maré alta, a água chega até um pier, onde os moradores locais se encontram em bares e restaurantes.
A marca histórica, de rodar do Chuí (extremo sul do País) até a cidade do Oiapoque (extremo norte), foi alcançada depois que os viajantes ainda tiveram que pegar a BR-156, após deixar o navio.
Rodaram 600 quilômetros pela BR-156, que está asfaltada apenas até Tartarugalzinho (depois de cruzar o rio Macari – que foi a divisa do Brasil até 1900), cerca de 280 quilômetros. Depois, são mais 270 quilômetros de terra e outros 50 quilômetros de asfalto, antes de chegar ao Oiapoque.

Cruzar o Brasil de Leste-Oeste
A segunda expedição, de Leste a Oeste, começou na praia de Cabo Branco em João Pessoa (PB) e terminou na pequena cidade de Mâncio Lima (AC), nas nascentes do rio Moa, em plena floresta Amazônica, atravessando a caatinga do sertão nordestino, o cerrado do Maranhão e a última fronteira agrícola em Palmas
Foram quatro dias cruzando os estados da Paraíba, Ceará e Pernambuco, Piauí, Maranhão e Tocantins, atravessando o semiárido do sertão nordestino e o cerrado do planalto central, enfrentando calor de até 40 graus centígrados e trechos de estradas em péssimas condições de tráfego e segurança.
Até o final da expedição no Acre, extremo oeste do país, foram mais de 8.200 quilômetros de rodovias asfaltadas, estradas de terra, enfrentando buracos, lama e condições adversas de clima.
De leste a oeste, cruzando o sertão, a vida não passa na mesma estação.

Esse caminho vale ouro!
O Caminho do Ouro, ou Estrada Real, foi criado pela Coroa portuguesa no século XVII com a intenção de fiscalizar a circulação das riquezas e mercadorias que transitavam entre Minas Gerais – ouro e diamante – e o litoral do Rio de Janeiro – capital da colônia por onde saíam os navios para Portugal. Como era proibido fazer o trajeto por outra via, o caminho foi usado por imperadores, soldados, mercadores, músicos, aventureiros e intelectuais, que além de produtos, carregavam ideais, como o de se transformar o Brasil em uma república independente. Foi por esse motivo, e para servir de exemplo para a o resto da população que partes do corpo de Tiradentes foram expostas em pontos estratégicos da Estrada após seu esquartejamento.
A grande movimentação e importância desse caminho fizeram nascer ao longo dos seus 1.200 km, inúmeras vilas, povoados e cidades. Mas é claro que com o fim desse ciclo econômico e com a industrialização, o caminho ficou por muito tempo adormecido, o que ajudou na sua conservação e possibilitou hoje o surgimento de vários projetos de recuperação para explorar seu potencial turístico.
Atualmente, a Estrada é formada por 177 municípios, sendo 162 em Minas Gerais, oito no Rio de Janeiro e sete em São Paulo. A união desses destinos reuniu atrativos de sobra para uma longa viagem, são construções coloniais, igrejas, museus, reservas ecológicas, esportes de aventura, estações de águas minerais, culinária mineira e, principalmente, nossa história.
A Estrada nasceu da união de três caminhos surgidos em momentos diferentes que deram origem ao que ela é hoje: o Caminho Velho, o Caminho Novo e a Rota dos Diamantes.
E a comida, mineira sô!
Obs: nessa coluna contei com a indispensável ajuda do Nereu Leme (que, juntamente com o Luiz Fanfa, organizaram as viagens). Ele ainda lembra de cada quilômetro das deliciosas “aventuras” feitas pelo Brasil. O drive da minha memória não tem tamanha capacidade para lembrar de tudo.
Obrigado Nereu!

